Anabolizantes: o que são, por que funcionam e os riscos para a saúde

Anabolizante funciona. É por isso que tanta gente usa, e é por isso que o assunto precisa ser tratado com honestidade, sem terrorismo e sem romantizar. O ganho de músculo é rápido, mas a conta chega no coração, no fígado, nos hormônios e na cabeça, e muitas vezes não dá para devolver.
Neste post explico o que são os anabolizantes, por que funcionam, quais são os efeitos colaterais segundo a ciência, o que acontece quando a pessoa para, o que diz a regra médica no Brasil e a diferença entre uso estético e tratamento.
O que são esteroides anabolizantes
São versões sintéticas da testosterona ou substâncias derivadas dela. Têm efeito anabólico, que aumenta a síntese de proteína e o ganho de massa muscular, e androgênico, que acentua características masculinas. Existem em injeção, comprimido e gel.
Na medicina, têm usos específicos e limitados, como a reposição hormonal em homens com deficiência de testosterona comprovada em exame e o tratamento de algumas doenças que causam perda grave de massa muscular. O uso para ganhar músculo ou melhorar o desempenho é outra coisa, com doses e riscos muito maiores.

Por que dão resultado tão rápido
Em doses acima das que o corpo produz, os anabolizantes aumentam muito a capacidade de construir músculo e de se recuperar entre os treinos. Um estudo clássico, com 600 mg de testosterona por semana durante dez semanas, mostrou ganho de massa e força mesmo em homens que tomaram o hormônio sem treinar, e um ganho ainda maior em quem tomou e treinou (Bhasin e colaboradores, 1996). As doses usadas por quem busca estética costumam ser várias vezes maiores do que as dos estudos, e quase sempre misturam substâncias.
Existe também um limite natural. Pesquisadores que mediram a massa magra de fisiculturistas viram que quem nunca usou anabolizantes raramente passa de um certo nível de músculo para a sua altura, enquanto usuários passavam bem desse limite (Kouri e colaboradores, 1995). Por isso muitas fotos de “corpo natural” das redes sociais não são naturais, e comparar o seu progresso com elas é injusto com você.
Os efeitos colaterais
A Endocrine Society, sociedade internacional de endocrinologia, reuniu os principais riscos numa declaração científica (Pope e colaboradores, 2014):
- Coração e vasos: aumento da pressão, queda do colesterol HDL (o bom) e aumento do LDL, espessamento e enfraquecimento do músculo do coração, mais placas nas artérias e maior risco de infarto, arritmia e AVC, inclusive em jovens. Um estudo com usuários de longo prazo encontrou função do coração pior e mais placa nas coronárias do que em quem não usava (Baggish e colaboradores, 2017).
- Fígado: principalmente com os comprimidos, risco de lesão, de tumores e de alterações graves.
- Hormônios e fertilidade: o corpo para de produzir a própria testosterona enquanto recebe a de fora. Atrofia dos testículos e queda da produção de espermatozoides são comuns, e a infertilidade pode durar muito tempo.
- Aparência: acne, calvície precoce, crescimento das mamas nos homens (ginecomastia). Nas mulheres, voz grossa, pelos no rosto, aumento do clitóris e alterações da menstruação, algumas permanentes.
- Cabeça: irritabilidade, agressividade, ansiedade e depressão, principalmente na saída do ciclo. Uma parte dos usuários desenvolve dependência.
- Infecções e produtos falsificados: compartilhar seringas e usar produtos de origem duvidosa expõe a infecções. Boa parte do que circula é falsificado ou contaminado.
Os riscos crescem com a dose, o tempo de uso e a mistura de substâncias. Uma revisão concluiu que os usuários têm mortalidade maior que a de quem não usa (Horwitz e colaboradores, 2019). Não existe “ciclo seguro” comprovado.

O que acontece quando a pessoa para
É a fase que quase ninguém conta. Ao parar, o corpo demora para voltar a produzir a própria testosterona, e em alguns casos não volta totalmente. Um estudo dinamarquês encontrou testosterona mais baixa e sintomas de deficiência hormonal, como cansaço, queda da libido e humor deprimido, em ex-usuários anos depois de terem parado (Rasmussen e colaboradores, 2016). É comum a pessoa perder parte do músculo, sentir-se mal e voltar a usar para fugir desses sintomas: assim começa a dependência.
Quem já usou e está com sintomas deve procurar um endocrinologista ou urologista e contar a verdade sobre o uso. Esconder atrapalha o diagnóstico e o tratamento.
O que diz a regra médica no Brasil
Desde 2023, o Conselho Federal de Medicina proíbe que médicos prescrevam esteroides anabolizantes para fins estéticos, para ganho de massa muscular ou para melhora de desempenho esportivo (Resolução CFM nº 2.333/2023). O uso continua permitido para doenças com indicação comprovada, como a deficiência hormonal diagnosticada.
Reposição hormonal não é a mesma coisa
Reposição de testosterona é tratamento para homens com deficiência comprovada em exame e com sintomas, feita com dose para trazer o nível ao normal, com acompanhamento de endocrinologista ou urologista. Uso para estética é outra coisa: doses acima do normal, sem indicação. Médico que prescreve “chip da beleza” ou anabolizante para ganho estético não está tratando, está vendendo.
Dá para ter um corpo forte sem anabolizante?
Dá, e com saúde. Treino bem planejado, proteína suficiente, sono e anos de regularidade constroem um físico forte e definido. É mais lento, e é por isso que dura. Os pilares estão no guia hipertrofia para iniciantes e em quantas gramas de proteína por dia. Se a sua queixa é falta de disposição e libido, o caminho começa no médico e nos hábitos; veja como aumentar a testosterona naturalmente.
Perguntas frequentes
Um ciclo curto é seguro? Não existe ciclo comprovadamente seguro. Mesmo usos curtos alteram os hormônios e o colesterol, e o efeito no coração se acumula com o tempo.
E se eu fizer exames durante o uso? Exames ajudam a ver o estrago, mas não impedem que ele aconteça.
Os efeitos colaterais passam quando para? Alguns passam, como parte da acne e da retenção de líquido. Outros podem ser permanentes, como alterações do coração, calvície, ginecomastia e, nas mulheres, a voz grossa. A produção de testosterona pode demorar anos para voltar ou não voltar totalmente.
Mulher pode usar anabolizante “leve”? Não existe anabolizante leve para a mulher. Os efeitos masculinizantes podem aparecer mesmo com doses baixas e alguns são irreversíveis.
Suplemento “pró-hormonal” é mais seguro? Não. Muitos têm substâncias anabolizantes não declaradas no rótulo, com os mesmos riscos.
Consultoria online
Ganhe músculo com treino e estratégia, sem atalhos
Treino personalizado no aplicativo, com vídeo de cada exercício e acompanhamento direto comigo pelo WhatsApp. Funciona em qualquer academia, em casa ou no hotel.
Conhecer a consultoria onlineReferências
- Baggish AL, Weiner RB, Kanayama G, et al. Cardiovascular toxicity of illicit anabolic-androgenic steroid use. Circulation. 2017;135(21):1991-2002.
- Bhasin S, Storer TW, Berman N, et al. The effects of supraphysiologic doses of testosterone on muscle size and strength in normal men. New England Journal of Medicine. 1996;335(1):1-7.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023, sobre a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes. Diário Oficial da União. 2023.
- Horwitz H, Andersen JT, Dalhoff KP. Health consequences of androgenic anabolic steroid use. Journal of Internal Medicine. 2019;285(3):333-340.
- Kouri EM, Pope HG Jr, Katz DL, Oliva P. Fat-free mass index in users and nonusers of anabolic-androgenic steroids. Clinical Journal of Sport Medicine. 1995;5(4):223-228.
- Pope HG Jr, Wood RI, Rogol A, Nyberg F, Bowers L, Bhasin S. Adverse health consequences of performance-enhancing drugs: an Endocrine Society scientific statement. Endocrine Reviews. 2014;35(3):341-375.
- Rasmussen JJ, Selmer C, Østergren PB, et al. Former abusers of anabolic androgenic steroids exhibit decreased testosterone levels and hypogonadal symptoms years after cessation: a case-control study. PLoS One. 2016;11(8):e0161208.



