Canetas emagrecedoras afetam a massa óssea, diz estudo: veja como proteger os ossos

As canetas emagrecedoras voltaram ao noticiário, agora por causa dos ossos. Um estudo publicado em 2026 acompanhou com densitometria pessoas que usam semaglutida (Ozempic e Wegovy) ou tirzepatida (Mounjaro) e encontrou perda de densidade óssea no quadril e no colo do fêmur. Entre quem não tinha diabetes, a perda no quadril foi maior com a caneta: 1% ao ano, contra 0,6% de quem não usava. O alerta é real e merece atenção, principalmente de mulheres depois da menopausa e de quem já tem osso fraco.
Mas a história completa é menos assustadora do que parece. Quem emagrece perde um pouco de osso no quadril, com ou sem caneta, e a caneta não parece atacar o osso diretamente. O que pesa é quanto e como você emagrece. E a boa notícia é que musculação e proteína suficiente seguram o osso no lugar.
Neste post eu mostro o que cada estudo encontrou de verdade, quem precisa de mais cuidado e o que fazer para emagrecer sem enfraquecer os ossos.

O que os estudos encontraram
O estudo que acendeu o alerta. Pesquisadores de Nova York compararam 255 pessoas com risco aumentado de fratura que usaram semaglutida ou tirzepatida com 255 pessoas parecidas que não usaram, todas acompanhadas com densitometria. A maioria era de mulheres, com idade média de 64 anos. Em cerca de um ano e meio, quem usou a caneta perdeu em média 5% do peso. Os dois grupos perderam densidade no quadril e no colo do fêmur, em quantidade parecida. Mas, entre os usuários, quanto mais peso a pessoa perdeu, mais osso perdeu. E entre quem não tinha diabetes, a perda no quadril foi maior com a caneta: 1% por ano, contra 0,6% de quem não usava [1].
Um ensaio controlado com semaglutida. Na Dinamarca, 64 adultos com risco aumentado de fratura, a maioria mulheres depois da menopausa, usaram semaglutida ou placebo por um ano. Quem usou o remédio perdeu 6,8 kg a mais e terminou com densidade um pouco menor no quadril e na coluna. Os próprios autores disseram que o osso a mais perdido pode ser explicado pelo emagrecimento [2].

É a caneta ou é o emagrecimento?
Tudo indica que é o emagrecimento. Três dados ajudam a entender:
- Dieta sozinha faz o mesmo. Uma revisão de 41 estudos mostrou que emagrecer só com dieta também reduz um pouco a densidade do quadril, em intervenções de seis meses a dois anos [3]. Com menos peso para carregar, o osso recebe menos carga e se adapta.
- A maior metanálise até hoje não viu efeito nos ossos. Publicada em setembro de 2026, ela reuniu 60 estudos e mais de 1,2 milhão de pessoas. Nas análises mais bem ajustadas, as canetas não mudaram a densidade óssea nem o risco de fratura. O que caiu de forma consistente foi a massa magra, e essa perda acompanhou o emagrecimento. Os autores ressaltam que a qualidade das evidências ainda é baixa [4].
- Fratura é outra história. Num estudo com idosos com diabetes tipo 2, quem usou semaglutida ou tirzepatida teve menos fraturas de fêmur e menos quedas em um ano do que quem usou outro remédio para diabetes [5]. É um estudo observacional, que não prova causa, mas não combina com a ideia de que a caneta destrói o osso.
Juntando tudo: a caneta faz emagrecer muito, e emagrecer muito tira um pouco de osso e de músculo. Não há prova de que ela aumente fratura. O problema aparece quando o emagrecimento é rápido, sem treino, comendo pouca proteína, em quem já tem osso frágil.
Por que o quadril preocupa
O quadril e o fêmur carregam o peso do corpo o dia inteiro. Quando o peso cai, a carga cai junto, e o osso responde ficando um pouco menos denso. Some a isso o apetite lá embaixo: muita gente com caneta passa o dia comendo muito pouco, com pouca proteína e pouco cálcio.
Num jovem saudável, uma pequena perda faz pouca diferença. Numa mulher depois da menopausa ou num idoso, que já perdem osso todos os anos, ela pode antecipar a osteopenia e aumentar o risco de fratura do colo do fêmur numa queda.
O que protege o osso enquanto você emagrece
Musculação
É o que mais protege, e há estudo bom mostrando isso com caneta:
- Caneta com exercício preservou o osso. Num ensaio com 195 adultos com obesidade, depois de uma dieta inicial, as pessoas passaram um ano com exercício, com liraglutida (uma caneta da mesma família), com os dois ou com placebo. Quem usou só a liraglutida perdeu mais densidade no quadril e na coluna do que quem só se exercitou, mesmo com perda de peso parecida. Quem juntou caneta e exercício foi quem mais emagreceu, perto de 17 kg, e terminou com a densidade do quadril e da coluna preservada [6]. O exercício tinha quatro sessões por semana, duas delas em grupo, com bicicleta em intervalos e circuito com exercícios de força.
- Musculação protege mais do que só aeróbico. Em idosos com obesidade fazendo dieta por seis meses, a densidade do quadril caiu 3% em quem fez só aeróbico, 1% em quem fez aeróbico e musculação e 0,5% em quem fez só musculação [7].
- Treino pesado bem feito constrói osso. Em mulheres depois da menopausa com osso fraco, musculação pesada e supervisionada, com saltos, aumentou a densidade da coluna e do colo do fêmur em oito meses, enquanto o grupo de exercício leve perdeu osso [8].
Na prática: musculação de duas a três vezes por semana, com exercícios grandes (agachamento, leg press, levantamento terra adaptado, remada e supino), carga subindo aos poucos e técnica bem corrigida. Impacto, como saltos, entra quando o corpo e o médico liberam. Para quem já tem osteopenia, veja os exercícios para quem tem osteoporose.

Proteína em todas as refeições
Com a fome baixa, a proteína costuma ser a primeira a sumir do prato. Uma revisão de 49 estudos mostrou que o ganho de músculo com treino aumenta até cerca de 1,6 g de proteína por quilo de peso por dia, e a faixa que cobre quase todo mundo vai até 2,2 g [9]. Para quem pesa 80 kg, isso dá de 128 a 176 g de proteína por dia. Comece cada refeição pela proteína e, se a fome não deixar, um whey ajuda. Faça a sua conta na calculadora de proteína.
Cálcio e vitamina D
Leite, iogurte, queijo, sardinha e folhas verde-escuras ajudam no cálcio. Suplemento de cálcio e de vitamina D só com exame e orientação do médico, porque a dose depende do que falta no seu caso.
Sem pressa de perder o máximo no menor tempo
Quanto mais rápido e maior o emagrecimento, mais músculo e osso vão junto. Siga a dose e o ritmo que o médico indicou, sem pular refeições inteiras porque a caneta tirou a fome.
Acompanhamento de verdade
O ideal é um time: o médico que indica e acompanha a caneta (e decide se você precisa de densitometria antes de começar), o nutricionista para a alimentação e o profissional de educação física para o treino. A caneta pode ser uma ferramenta muito boa, mas ela não substitui nenhum dos três.
Quem precisa de mais cuidado
- mulheres depois da menopausa
- pessoas acima dos 65 anos
- quem já tem osteopenia, osteoporose ou já teve fratura
- quem usa a caneta só por estética e passa o dia quase sem comer
- quem não treina nenhum tipo de força.
Perguntas frequentes
O Ozempic enfraquece os ossos? Pelo que se sabe até agora, não diretamente. Quem emagrece com Ozempic perde um pouco de densidade no quadril, assim como quem emagrece só com dieta. A maior metanálise sobre o tema não encontrou efeito das canetas na densidade óssea nem no risco de fratura nas análises mais bem ajustadas.
Mounjaro causa osteoporose? Não há prova disso. A tirzepatida tem menos estudos sobre osso do que a semaglutida, e o que existe aponta para o mesmo caminho: a perda óssea acompanha o tamanho do emagrecimento. Quem já tem osteopenia ou osteoporose deve conversar com o médico antes de começar.
Qual caneta emagrecedora faz perder menos massa muscular? Ainda não há estudos de boa qualidade comparando as canetas entre si nesse ponto. Em todas elas, o que mais protege músculo e osso é o mesmo: musculação e proteína suficiente.
Posso fazer musculação usando caneta? Pode e deve. Nos dias de pouca energia, mantenha o treino com menos volume, mas não pare. Coma alguma proteína antes de treinar, beba água e avise o seu personal sobre tontura ou enjoo.
Preciso fazer densitometria antes de usar caneta? Quem decide é o médico. Ela costuma fazer mais sentido em mulheres depois da menopausa, em idosos e em quem já teve fratura ou usa remédios que enfraquecem o osso.
Referências
- Liu Y, Walzer D, Schmitz S, Shukla AP, Ma X, Chirko D, et al. Skeletal effect of semaglutide and tirzepatide in patients with increased risk of fractures. J Clin Endocrinol Metab. 2026;111(7):1959-1966. doi: 10.1210/clinem/dgag052
- Hansen MS, Wölfel EM, Jeromdesella S, Møller JK, Ejersted C, Jørgensen NR, et al. Once-weekly semaglutide versus placebo in adults with increased fracture risk: a randomised, double-blinded, two-centre, phase 2 trial. EClinicalMedicine. 2024;72:102624. doi: 10.1016/j.eclinm.2024.102624
- Zibellini J, Seimon RV, Lee CM, Gibson AA, Hsu MS, Shapses SA, et al. Does diet-induced weight loss lead to bone loss in overweight or obese adults? A systematic review and meta-analysis of clinical trials. J Bone Miner Res. 2015;30(12):2168-2178. doi: 10.1002/jbmr.2564
- Beaudart C, Malréchauffé Y, van Heden S, Sanchez-Rodriguez D, Scheen A, Bruyère O, et al. GLP-1 receptor agonists and musculoskeletal outcomes: a systematic literature review and meta-analysis. Drugs. 2026;86(10):1661-1691. doi: 10.1007/s40265-026-02365-3
- Chen HY, Wu JY, Chu YH, Chen TW, Huang CF. Lower fall and femoral fracture risks with semaglutide and tirzepatide compared with DPP-4 inhibitors in older adults with type 2 diabetes. Osteoporos Int. 2026. doi: 10.1007/s00198-026-08134-y
- Jensen SBK, Sørensen V, Sandsdal RM, Lehmann EW, Lundgren JR, Juhl CR, et al. Bone health after exercise alone, GLP-1 receptor agonist treatment, or combination treatment: a secondary analysis of a randomized clinical trial. JAMA Netw Open. 2024;7(6):e2416775. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2024.16775
- Villareal DT, Aguirre L, Gurney AB, Waters DL, Sinacore DR, Colombo E, et al. Aerobic or resistance exercise, or both, in dieting obese older adults. N Engl J Med. 2017;376(20):1943-1955. doi: 10.1056/NEJMoa1616338
- Watson SL, Weeks BK, Weis LJ, Harding AT, Horan SA, Beck BR. High-intensity resistance and impact training improves bone mineral density and physical function in postmenopausal women with osteopenia and osteoporosis: the LIFTMOR randomized controlled trial. J Bone Miner Res. 2018;33(2):211-220. doi: 10.1002/jbmr.3284
- Morton RW, Murphy KT, McKellar SR, Schoenfeld BJ, Henselmans M, Helms E, et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. Br J Sports Med. 2018;52(6):376-384. doi: 10.1136/bjsports-2017-097608
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